quinta-feira, 6 de novembro de 2008

São Pedro

Já falei em posts anteriores de São Judas Tadeu e de São Longuinho. Hoje, não sei porque, ao ficar olhando a chuva que caía à noite, lembrei-me de São Pedro. Nos últimos dias, ele tem acertado em cheio no Rio de Janeiro - pelo menos para o meu gosto. De dia, a união do sol com a brisa resulta em uma temperatura extremamente agradável. À noite, ele nos presenteia com uma chuva musical, que parece até aqueles CDs de yoga, que começa a tocar no momento exato para relaxar alma e corpo. Ok, eu nem preciso de CD para dormir minhas sagradas 18 horas, mas nestes momentos parece que eu apago - minha mãe me cutuca e eu ignoro-a completamente (afinal, sou um gato, acima de tudo).

De manhã, quando acordo (ou melhor, quando minha mãe acorda e acaba me despertando do meu sono profundo), eu vou direto para o meu canto preferido da janela e - voilà! O sol reina radiante no céu azul povoado de nuvens brancas - como se a chuva da noite anterior fora apenas um sonho bom. Dá uma sensação gostosa, de que a chuva veio lavar a minha alma para que eu posso recomeçar - o dia e tudo mais que eu quiser. Simbolicamente, é como se - recorrendo a um velho clichê - depois da tempestade vem a bonança e nada melhor que um dia após o outro. Me bate uma certa esperança que tudo é possível - ok, no dia de hoje, pode não ser apenas a chuva que me desperta este sentimento, mas também a vitória de Obama (yes, we can!). Mas, ops, esperança?! Que sentimento é este? Complexo...

Diz a sabedoria popular que a esperança é a última que morre. Para Nietzsche, a esperança é o pior dos males, pois remete à expectativa de um futuro incerto (e enganoso, não correspondente à realidade). Segundo a mitologia grega, Prometeu (que criou a humanidade) roubou o fogo do Olimpo para ser usado pelos homens e prendeu em uma caixa todos os males - como doença, loucura, guerra, morte e - oh, oh - a esperança também estava lá entre os males! Para vingar o roubo do fogo, Zeus prendeu Prometeu, acorrentou-a uma rocha e fez com que um abutre comesse seu fígado durante o dia, para que ele se recuperasse durante a noite. Vingança cruel para mostrar que ele pagaria por toda a eternidade por ter ousado se comparar a um deus. E fez mais: criou a belíssima Pandora, enviou-a à Terra para casar com Epimeteu, irmã de Prometeu. Ao encontrar a caixa com os males, Pandora teve a infeliz idéia de a abrir - e todos os males, inclusive a esperança, passaram a afligir a humanidade, tornando vocês, humanos, fracos, incompletos e mortais, que, graças a esperança, conseguem continuar vivendo com tudo o que tinha na caixa.

E até hoje ela está entre vocês, humanos, para o bem e para o mal, para diminuir a dor e para distanciá-los da (às vezes dura) realidade. Vocês convivem com este desejo infantil de que as coisas, de alguma forma, em algum momento, vão acontecer. Mas, confesso, que a esperança não é de todo ruim se ancorada em ações e mudanças. Se ela conseguir motivar os humanos na direção dos seus desejos, ela pode transformar vocês em seres mais potentes. Agora, se ela servir apenas de bengala, de desculpa de que, algum dia, sabe Zeus quando, as coisas vão milagrosamente melhorar, tenho que concordar com Nietzsche. Pois, neste ponto, é até sábio dizer que a esperança é a última que morre - pelo menos ela morre! Como ela não é eterna, ao morrer um dia, significa que chegou o ponto de encarar a realidade de frente, doa o que doer. E aí sim vale mais matar a esperança e os fantasmas que nos afligem do que a realidade.

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